Eu sabia muitas coisas sobre mim.
Sabia do que gostava. O que não tolerava. O que queria para o futuro. Sabia quais eram as minhas prioridades, os meus limites, os lugares onde me sentia confortável e aqueles aos quais não pretendia voltar.
Durante muito tempo, achei que isso era me conhecer.
Até me tornar mãe.
A maternidade não me fez esquecer quem eu era.
Fez algo mais estranho: tornou insuficiente muito do que eu sabia sobre mim.
Como se, de repente, respostas que durante anos funcionaram perfeitamente passassem a pertencer a perguntas que já não existem.
Eu ainda me lembro delas.
Só não sei mais se acredito em todas.
E talvez tenha sido essa uma das experiências mais silenciosas da maternidade para mim: eu me desaprendi de mim.
Não no sentido de ter me perdido.
Eu sei onde estou.
O que já não sei, com a mesma segurança, é quem é essa mulher que habita esse lugar.
Porque existe uma diferença entre perder-se e tornar-se desconhecida para si mesma.
Quando estamos perdidos, procuramos referências. Tentamos refazer o caminho, reconhecer uma esquina, encontrar alguma coisa que nos devolva ao ponto de onde saímos.
Mas e quando não queremos voltar?
E quando o caminho anterior continua existindo, mas já não leva para onde queremos ir?
Talvez seja isso que eu esteja aprendendo desde que me tornei mãe: nem toda mudança exige um retorno. Algumas exigem permanência no desconhecido.
E permanecer no desconhecido é desconfortável.
Porque passei boa parte da vida acumulando certezas sobre quem eu era.
Construí gostos, opiniões, ambições, hábitos. Fiz escolhas a partir deles. Recusei outras tantas. Criei uma narrativa razoavelmente coerente sobre mim mesma e, durante algum tempo, ela me serviu muito bem.
Até que deixou de servir.
Não porque estivesse errada.
Talvez porque tenha sido escrita para uma versão minha que já não existe daquela forma.
Depois da maternidade, comecei a me surpreender comigo.
Coisas que antes me moviam já não me movem tanto.
Outras, às quais eu sequer prestava atenção, passaram a ocupar espaços enormes.
Algumas urgências perderam completamente a urgência.
Alguns sonhos permaneceram, mas mudaram de tamanho, de forma, de prazo.
Outros simplesmente deixaram de ser meus.
E existem desejos novos que ainda não sei nomear.
É estranho perceber que podemos passar tantos anos aprendendo a ser alguém e, de repente, precisar nos perguntar novamente:
isso ainda faz sentido para mim?
Tenho feito essa pergunta com frequência.
Às vezes, para coisas grandes.
Às vezes, para coisas absolutamente pequenas.
E nem sempre tenho resposta.
Talvez antes isso me incomodasse mais.
Hoje começo a desconfiar que existe alguma beleza em não saber.
Passei tanto tempo entendendo autoconhecimento como a capacidade de ter respostas sobre si que nunca considerei que talvez conhecer-se também seja suportar os períodos em que essas respostas ainda estão sendo construídas.
Há uma espécie de liberdade nisso.
Assustadora, é verdade.
Mas liberdade.
Porque, quando aquilo que você sabia sobre si deixa de ser uma obrigação, surge a possibilidade de descobrir quem você é sem precisar obedecer à pessoa que um dia decidiu ser.
Talvez eu ainda goste das mesmas coisas.
Talvez não.
Talvez eu continue querendo chegar aos mesmos lugares.
Talvez chegue e descubra que já não quero ficar.
Talvez algumas convicções retornem.
Outras, espero que não.
Eu não sei.
E esse “não sei”, que durante tanto tempo me pareceria uma ausência, hoje me parece um lugar.
Tenho habitado nele.
Um lugar entre aquilo que fui e aquilo que ainda não sei que sou.
Sem a pressa de atravessá-lo.
Porque talvez a maternidade não tenha criado uma nova versão definitiva de mim.
Talvez não exista essa mulher pronta, esperando que eu finalmente a descubra.
Talvez exista apenas esse movimento.
Esse constante estranhamento.
Essa revisão silenciosa das coisas que eu jurava saber.
Essa descoberta quase cotidiana de que algo ainda faz sentido — ou já não faz.
Eu me desaprendi de mim.
E, curiosamente, já não digo isso com tristeza.
Há coisas que precisamos desaprender para não passarmos a vida inteira sendo fiéis a versões nossas que já terminaram.
Hoje, quando me pergunto quem sou depois da maternidade, não encontro uma resposta muito organizada.
Encontro pistas.
Algumas permanências.
Muitas mudanças.
Contradições.
Desejos ainda sem nome.
E uma mulher que, pela primeira vez em muito tempo, não sente tanta necessidade de saber exatamente quem será amanhã.
Talvez seja isso que a maternidade tenha feito comigo.
Não me ensinou uma nova maneira de ser.
Me ensinou a habitar o desconhecido.
E a descobrir, todos os dias, o que ainda faz sentido chamar de meu.